
Passei a dor adiante. Ela já não era mais capaz de absorver tudo o que eu sofria. Não era necessário dar explicações, minhas feições já denunciavam minha suposta indiferença. A dor foi gentil comigo, nos encontrávamos furtivamente, ela só se mostrava pra mim quando estávamos a sós, ela sabia meus motivos e chegava até a acenar positivamente com a cabeça.
- O que foi que te fizeram desta vez, ela perguntava preocupada.
Com a fronte baixa e os olhos marejados respondia:
- Nada que um pouco de sua companhia e minha reflexão não possam curar.

Ter que admitir pra si mesmo que cometeu um erro é um dos exercícios mais difíceis na vida do ser humano. Quando a verdade nos confronta, sentimos nossos pés a beira de um precipício de convicção e desdém que nós mesmos criamos.
Nos seguramos inutilmente nas amarras de deduções mal-feitas. Temos sempre as mãos da verdade e da humildade ali estendidas para saírmos dessa cilada, mas o orgulho fala mais alto e caímos confiantes de que perdemos uma batalha, mas não a guerra.
Resta uma dúvida, será que saímos mais fortes ao escalarmos sozinhos o precipício que cavamos, ou será que nos tornamos mais honestos por aceitar nossos erros e a facilidade de mãos que parecem nos amparar?

Por que me tomas lembranças mal-vindas? Acaso eu já não te expulsei das minhas ternuras, então como ousas entrar aqui após o sofrimento que me causaste?
Não, minha resposta é não. Por mais que tentes, eu não permitirei que destruas a paz de espírito que é viver longe de vocês. Não permitirei que novas feridas se abram, por maior que sejam teus apelos e minha vontade de dar mais uma chance.
Não posso.
Teu tempo já passou,
tuas lições já foram aprendidas,
os sorrisos já foram consumados
e minhas lágrimas já foram digeridas.
Resta apenas uma cicatriz, e esta é a única coisa que me orgulho, mas que as vezes trarão vocês de volta a minha mente por um momento.

Na teoria meus planos dão certo em sua maioria, se não fosse assim seriam ao acaso mesmo, fico analisando diversas hipóteses, é o que gosto e preciso fazer. Preciso ver o que minha mente criou materializado. É uma sensação indescritível quando tudo sai conforme os planos, não planejo maldades, não tenho necessidade de ser ou parecer superior a ninguém, não penso só no meu bem, penso nos outros e crio momentos e coisas agradáveis as vezes, apenas pra ver o sorriso e as feições de surpresa de algumas pessoas que aprecio.
Me sinto desconfortável agora porque esse prazer que sentia em agradar aos outros, teima comigo e tenta se esvair como areia da praia entre os dedos da mão.
Será possível que as dores do mundo me aplacaram e eu esteja caminhando de mãos dadas com o egoísmo e a mesquinhez?
É muito fácil chegar para alguém e dizer:
- Você é/está muito insensível, frio ou egoísta.
O difícil é mostrar que as ações e feições características de quem é assumidamente assim são iguais as da pessoa que se quer convencer.
Talvez seja apenas uma fase, fases nos pegam de surpresa, nos magoam com nossa própria cegueira e ferem algumas vezes a quem amamos, mas deve ser a partir daí que se cresce porque se não, nada disso valeria a pena...

O passado surge como algo irreal enquanto folheio minhas agendas antigas. Não tinha noção do quanto sou sentimental, talvez eu nem seja tanto, mas dou a entender que sou.
"Quem vê cara não vê coração." Todos julgamos uns aos outros, parece fazer parte do instinto humano, como forma primitiva de nos mantermos a salvo do desconhecido. Devia ter seguido meus instintos, devia ter me afastado de certos tipos estranhos que surgiram em minha vida e que por ingenuidade, curiosidade e boa vontade, acabei me aproximando.
Se não fossem esses tipos, teria que basear minhas esperiências pessoais nos relatos dos outros ou minha imaginação vaga. Mais do que nunca afirmo que as decepções que li em minhas agendas, não são o rascunho de uma vida, foram tentativas com erros e acertos. Pobre de mim se não soubesse disto. Não me envergonho de nada, não nasci sabendo, eu nasci sentindo. Sinto mais ainda por quem não aprendeu nada comigo. O caminho é mostrado pelas estrelas, basta aprender a trilhar as suas...

Eu queria ter dito várias coisas.
Abri a boca, mas as palavras não saíram, ficou apenas marcado em meu rosto o espanto daquela situação inesperada.
Senti o coração diminuir no meu peito. Me senti inútil já que nem pra falar o que queria dizer , consegui. E ficou por isso mesmo. Medo, insegurança, covardia, machismo, egoísmo, tanta coisa me passou pela cabeça. Fins de relacionamento são sempre assim. Restou apenas a convicção de que desde o início estava tudo errado entre nós.
Eu não merecia passar por isto, mas precisava. O mundo está cheio de pessoas estranhas(*), alguns de nós estamos dispostos a conhecer gente interessante, desde que não nos façam mal e que essas pessoas novas em nossas vidas mantenham suas manias em níveis aceitáveis de convivência porque se não tornar-se-á, como pinta a figura: um homem velho que lutou e desfrutou de tudo na vida e que agora não passa de um velho ranzinza, solitário e que vive pensando no passado ou no futuro medíocre que desenhou para si mesmo...
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Da Dissimulação2 semanas atrás
